Textos categorizados 'filosofia'

Como você conhece o mundo? Uma palavra sobre Ceticismo.

A pergunta, devido sua imprecisão, dá-nos margem para pensar em um bocado de respostas plausíveis. A maioria delas certamente sustentada por nossa experiência mundana, aquela que adiquirimos no dia-a-dia. Contudo, como sabemos que aquilo que dizemos conhecer é necessariamente uma verdade?

Um exemplo para desanuviar meu raciocínio: muitos poderiam dizer que são pais e mães de seus filhos. Mas eles poderiam ter sido trocados na maternidade e, nesse caso, estarem enganados a esse respeito. Poderiam, então, notar que estavam enganados a respeito de diversas outras coisas.

O que temos, na maioria das vezes, são crenças. Algumas logicamente plausíveis. Outras, nem tanto. Mas nenhuma delas verdades irrefutáveis. Por isso, a ciência e a filosofia criam parâmetros para examinar nossas crenças e verificar quais são realmente certas e quais são efetivamente falsas.

Não é difícil encontrar grupos de pessoas que acreditam naquilo com o que não concordamos. Eles acreditam em uma verdade que não aceitamos. Nesse caso, como decidir quem está certo e quem está definitivamente errado?

O Ceticismo Filosófico tenta estabelecer as condições para que algo seja tomado como verdade absoluta, ou seja, uma verdade que independa de fatores circunstanciais, algo que não seja verdadeiro somente para mim ou somente para um grupo de pessoas, mas para todos os seres racionais. Uma espécie de condição universal para a verdade, que independa de opiniões particulares.

O ceticismo filosófico teve origem na grécia e uma de suas primeiras propostas foi feita por Pirro de Elis, que viveu entre 360 e 275 a.C. Diz a lenda que o filósofo morreu enquanto dava aula a seus discípilos, de olhos vendados. Um deles o teria alertado sobre um precipício. O filósofo não acreditou e acabou caindo.

Obviamente, essa é uma lenda que visa nos dizer a dimensão dos problemas ocasionados devido ao ceticismo cego. Como em tudo, devemos ser suficientemente inteligentes para saber balancear o ceticismo em doses sensatas. Manter crença em tudo, bem como negar tudo ao invés de duvidar e investigar, geralmente não nos ajuda conhecer o mundo de maneira autêntica, onde a verdade absoluta talvez nem exista, e seja, como disse Nietzsche, somente um ponto-de-vista.

A Desobediência Civíl

Recentemente, iniciei a leitura de “A desobediência Civíl“. Trata-se do texto mais conhecido de Henry David Thoreau, e foi escrito em 1849. O texto foi abrilhantado pela influência que exerceu na resistência pacifista de Mahatma Gandhi, na liderança ativista de Martin Luther King e nos ideais políticos de Léon Tolstói.

O texto deixa claro que Thoreau estava insatisfeito com seu governo. “Aceito com entusiasmo o lema ‘O melhor governo é o que governa menos’” dá início à uma leitura e reflexão grandiosas. No decorrer do ensaio, Thoreau questiona como as pessoas são capazes de se sentir confortáveis, em condições morais satisfatórias, enquanto “escraviza ou faz sofrer um outro homem”. Em nenhum momento, no entanto, ele diz que precisamos ser fisicamente agressivos. Ao contrário, diz que basta não apoiar o governo, nem deixar que ele o apóie – mesmo quando estiver contra ele.

Em outras palavras, ele sugere que neguemos ao governo em todos os aspectos. Não damos nosso apoio (pagando impostos, por exemplo) e não aceitamos nenhum de seus subsídios. Thoreau sustentou seus ideais de tal maneira, que chegou a ficar uma noite inteira numa prisão no estado onde morava, após ficar seis anos sem pagar o imposto “per capita” (ou “individual”). No ensaio, logo após o episódio, ele diz: “perdi todo o respeito que ainda tinha por ele [governo] e passei a considerá-lo apenas lamentável”.

Nos dias de hoje, acho difícil seguir a risca o que diz Thoreau. Confesso, inclusive, que devido minha cultura capitalista, foi bastante difícil digerir aquilo que foi escrito. Não é fácil interpretar e compreender abolicionistas em uma época como a nossa, onde nem mesmo em pensamentos pueris é possível cogitar uma vida sem impostos, taxas de sobrevivência ou pouco dinheiro para desfrutar uma vida saudável.

Entretanto, a insatisfação que leva Thoreau a se rebelar deveria (e poderia) ser levada em consideração em vários outros aspectos de nossas vidas. O governo não nos é tão útil tanto quanto como nós somos para eles – enquanto contribuintes. Muitos sentem isso, mas poucos deixam claro sua insatisfação. Menor ainda é o número de pessoas que sugerem soluções ou transmitem idéias capazes de atrair seguidores.

Num país como o nosso, onde fatos e boatos alimentam continuamente o ceticismo da população com relação ao nosso governo, ensaios como “A desobediência Civíl” nos mostram que a melhor maneira de protestarmos não é fazendo igual ou pior que as quadrilhas do Palácio do Planalto, mas renegando-as, inclusive, em suas características mais humanas.

Uma nação justa não se faz de um povo que corrompe sob a desculpa de ter sido um dia corrompido. Mas de pessoas que não aceitam a corrupção em nenhuma forma, e luta contra aquilo que o incomoda da melhor maneira possível: não lhe dando seu apoio em nenhum aspecto.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

Thoreau foi influenciado por Rousseau, autor de “O Contrato Social“. Nesta, que é considerada a obra-prima do autor, ele entende que todo ser-humano é livre e naturalmente bom. Ele se torna corrupto de acordo com o meio em que vive. Por isso, ele estimula os homens a viverem em sociedades menores.

As idéias de Rousseau – como os princípios de liberdade e igualdade política – tiveram grande influência na Revolução Francesa, tendo, inclusive, inspirado sua segunda fase, quando o que havia sobrado de monarquia fora completamente liquidado.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

Para os cinéfilos, recomendo que assistam “Into the wild“, que é fortemente influenciado por Thoreau.