Arquivo para Maio, 2008

O que podemos fazer politicamente pelo Brasil – Parte II

Sobre a manipulação midiática

“Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.”
Paulo Henrique Amorim

Quando chega a época de eleições, é comum ver notícias e matérias inteiras com falácias a respeito de candidatos e partidos políticos que não agradam ou não oferecem vantagem aos editores, donos e lobistas de instituições de cunho informativo – como jornais, revistas e periódicos – que não respeitam o princípio da imparcialidade.

A informação é um importante instrumento de formação. Justamente por isso, devemos submeter à rigorosa análise tudo a que somos expostos antes mesmo de levar algo em consideração. Em alguns casos, é fácil identificar o toque manipulador da mídia (como na famosa edição “melhores momentos de Collor X piores momentos do Lula”, feita pela TV Globo, em 1989). Em outros, no entanto, a mídia demonstra poder, oportunismo e facilidade de “manipulação obscura” desmedidos.

Para citar um só exemplo, recorro à matéria recentemente publicada pelo jornal O Globo, na qual eles analisam o relatório feito pela Anistia Internacional sobre o Brasil. A matéria discorre sobre os vários problemas sociais apontados no relatório e destaca um só culpado: o PAC – Programa de Aceleração do Crescimento -, nada menos que o principal sustentáculo da política do governo Lula.

A manchete – “Anistia: PAC pode ameaçar direitos humanos” – já diz muito sobre esse tipo de notícia. Todas as outras análises desse mesmo relatório (que pude ler) falam sobre os problemas relacionados à segurança pública, discriminação indígena, impunidade, condições desumanas de trabalho em canaviais e também sobre violência contra mulheres. Todos esses são tópicos do relatório. Vocês acham que os malefícios atribuídos ao PAC, com relação aos direitos humanos, são mais importante que qualquer um desses assuntos? Por quê? Pois é.

Não acho ruim uma matéria, ainda que feita por um veículo reconhecidamente parcial, “desmascarar” partidos e políticos por aí afora. Mas chega uma hora em que até a mais bem intencionada das matérias parece não ter o mínimo de credibilidade. O brasileiro está demasiado exposto a todo o tipo de manipulação midiática possível. E isso se torna mais evidente em época de eleição.

A esmagadora maioria dos veículos de comunicação brasileiros está nas mãos de umas poucas famílias sem nenhuma responsabilidade ética. O respeito aos leitores, ouvintes e telespectadores vem logo atrás do interesse financeiro.

Não me considero uma pessoa ingênua. A imparcialidade dificilmente será encontrada em algum veículo de comunicação brasileiro. Por isso, todo cuidado é pouco na hora de sustentar uma opinião (ou transformá-la em voto) a partir de notícias que visam nos manipular.

Barack Obama fazendo escola

Parece que a onda de “Políticos 2.0″ está chegando ao Brasil. Aparentemente, o sucesso do virtual candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Barack Obama, era o que faltava para que os partidos brasileiros investissem com maior afínco no marketing online – principalmente nas redes de relacionamento.

O PPS – Partido Popular Socialista – é o primeiro partido brasileiro a criar um sitio com recursos da chamada “Web 2.0″. O Portal conta com ferramentas que visam atrair o público jovem para conhecerem suas idéias, seus ideais políticos e envolver-se com a sociedade como um todo.

Para isso, desenvolveram ferramentas como uma rede social, denominada Rede23, um portal de TV – a TV PPS – e até Rádio online. O apelo não pára por aí. Uma vez cadastrados, podemos criar blogs, adicionar fotos e vídeos e até criar comunidades segmentadas (ao melhor estilo “Orkut”). A apresentação do novo sítio é feita pelo Presidente do partido, Roberto Freire.

A iniciativa me surpreendeu bastante. Um Portal desses, com os objetivos postos, certamente trará maior visibilidade ao partido. Isso também fará com que a participação do eleitor seja mais ativa. E isso poderá trazer problemas aos partidos cuja filosofia de “nunca se posicionar até que absolutamente necessário” fala mais alto.

Explico. No Brasil, é comum ver partidos com ideais opostos se aliarem em determinadas campanhas (como na eventual aliança entre Quércia e Democratas, na disputa pela prefeitura de São Paulo). E para fazer sucesso na internet – tal qual atingiu Barack Obama, por exemplo -, é necessário ter uma posição bastante definida, ser transparente e lembrar que o Google armazena histórico de praticamente todo o conteúdo publicado nos dias atuais. Ou seja: uma vez dito, nem foro privilegiado resolve.

De qualquer maneira, o lançamento do sítio é um marco para o movimento político na internet brasileira. Até hoje, o máximo que tínhamos eram comunidades orkutianas, e-mail marketing e blogs editados por subordinados. Pudera. Pouco conteúdo é o mesmo que pouca munição para os partidos adversários.

O surgimento de Portais como este – onde ainda nem tudo são flores, já que não é possível encontrar, por exemplo, um diretório de propostas públicas -, fará com que jovens que (ainda) não se interessam por política tomem gosto, e poderão fazê-lo de uma maneira cultuada pela maioria deles: criando e se relacionando pela internet.

Tomara que até 2010 o TSE consiga entender que o futuro está aí, e não adianta fechar os olhos para ele. Proibir que campanhas utilizem todos os recursos da internet, em pleno país onde as pessoas passam mais tempo online que qualquer outro no planeta me soa, no mínimo, antiquado.

Trânsito: Qual a solução para os problemas?

O trânsito está cada vez mais complicado. A cidade de São Paulo detém o equivalente a 20% de toda a frota de veículos do país. Números do Detran-SP indicam que 1000 carros são emplacados por dia, agravando ainda mais os problemas causados pelo excesso.

O bom momento econômico o qual o país atravessa, paradoxalmente, contribui muito para o aumento da frota de veículos. Nos últimos dez anos, o número de veículos cresceu 25%, enquanto que a infra-estrutura urbana, como ruas e avenidas, aumentou apenas 6%.

Recentemente, o atual prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, nos revelou a causa de todo o trânsito da cidade: conspiração contra ele, em um ano de eleições. Ele disse que algumas pessoas queriam o prejudicar, quando em março deste ano São Paulo quebrou um recorde atrás do outro, com praticamente todas as principais avenidas congestionadas entre 17h e 20h.

É claro que não se trata disso. O problema do trânsito da cidade é fruto da má gestão de todos os prefeitos anteriores. São 28 anos de investimentos irrisórios. Houve tempo em que achavam que a solução para o trânsito de nossa cidade era o automóvel. Maluf acreditava tanto nisso, que em sua administração construiu inúmeras pontes, avenidas, estradas etc. O transporte público sempre ficou em segundo plano.

Sinceramente, acho que ainda há solução para o transporte público. Mas para o transporte individual (e individualista), não. São Paulo necessita de transporte público abrangente e de boa qualidade. O Metrô possui somente 61,3 km de extensão. Os trêns da CPTM possuem extensão de 257,2 km. A cidade de São Paulo possui uma área total de 1.522,986 km².

Como o problema afeta praticamente todo eleitor, esse deve ser uma das prioridades das campanhas que estão por vir. Ouviremos, certamente, indizíveis propostas para melhorar o trânsito dessa cidade. Marta Suplicy – que nem candidata certa é – já se pronunciou dizendo que o trânsito de São Paulo será um dos destaques de sua possível (e provável) campanha.

Geraldo Alckmin, que também concorrerá ao cargo nas próximas eleições, já foi até Curitiba mostrar que também está interessado em buscar (e mostrar) soluções para o transporte público de São Paulo. Como governador, lembro-me de uma única ação do tucano em questão: aumentar o preço dos bilhetes de metrô.

O fato é que os gestores mudam e os problemas continuam – e até pioram. Dessa vez, a opinião pública promete cobrar muito mais que o usual. Todos nós merecemos transporte de melhor qualidade. Cobremos, pois, com firmeza.

O que podemos fazer politicamente pelo Brasil? – Parte I

Sobre a Desigualdade social

“Os sete pecados capitais responsáveis pelas injustiças sociais são: riqueza sem trabalho; prazeres sem escrúpulos; conhecimento sem sabedoria; comércio sem moral; política sem idealismo; religião sem sacrifício e ciência sem humanismo.”
Mahatma Gandhi

Particularmente, acho que desigualdade social, no sentido de desigualdade econômica gerada pela má distribuição de renda, sempre haverá. Esse, em geral, é um problema causado pelo Capitalismo. No Brasil, esse problema é acentuado pela injustiça tributária, onde 75,4% da riqueza do país estão nas mãos dos 10% mais ricos; e os pobres pagam até 44,5% mais impostos. Mas algo pode ser feito para minimizar esses problemas.

A Reforma Tributária é assunto recorrente na mídia brasileira – e está na mesa de discussões desde 1995. Há muita pressão de empresários para que ela seja posta em prática, efetivamente. Os emaranhados legislativos e tributários são, sem dúvida, os principais obstáculos para que o Brasil sustente o avanço econômico que tem apresentado nos últimos anos.

O ineficiente e injusto sistema tributário brasileiro cerceia o crescimento econômico, impede a criação de empregos e dá poder demais às autoridades, de maneira que elas tenham um enorme poder de influir na vida dos cidadãos. Exemplo disso são os impostos indiretos (ou, tributos repassados aos produtos), que são “invisíveis” aos consumidores e variam de 18% no feijão a 83% na cerveja. Ao ligar a luz, se paga 25% do valor consumido somente em impostos.

Apesar disso, o que não deveria existir são pessoas sem a menor condição de vida. Tampouco de ascensão social. A solução imediatista adotada pelo governo, nesse ínterim, foi o Programa Bolsa Família, elogiada no mundo inteiro e criticada por muitos brasileiros, que enxergaram nisso uma forma oportunista de galgar votos. A popularidade do programa é tamanha, que irei furtar-me em dar maiores explicações ou opiniões sobre ele.

O Ministério do Desenvolvimento Social possui ainda diversos outros programas que visam diminuir a pobreza absoluta no Brasil – cujos índices são os mais baixos em décadas. Contudo, o maior desafio desse ministério, a meu ver, é conciliar o desenvolvimento social (racial e educacional) com os interesses político-econômicos do país. Isso porque a quase que totalidade de recursos públicos é consumida pelo custeio da própria máquina pública e suas dezenas de ministérios.

A despeito de todo o escândalo envolvendo repasse de dinheiro público às ONGs ligadas ao governo – aqui e aqui, para citar algumas notícias –, existem organizações sérias e que não esperam que o governo faça aquilo que podemos, por nossas próprias forças, fazermos. Obviamente, não devemos deixar de lado o esforço de cobrar nossos governantes, mas não devemos depender somente deles. O povo que depende exclusivamente do seu governo está fadado ao abandono político, econômico e social.

Não é fácil imaginar uma solução para a desigualdade social no Brasil (e no mundo) sem antes passar pela fase de “conscientização humana”, e que essa tarefa soa utópica. Palavras como egoísmo e materialismo deviam ser banidas do nosso dia-a-dia. Minha intenção não é dizer que a solução está na caridade – que se afigura como “descargo de consciência”. E sim no sentimento de relação que temos com todos os problemas que vemos nas ruas e nos jornais.

Devemos lembrar que o governo não tem vida própria. Ele é constituído, em sua maioria, por seres-humanos. Portanto, nossos governantes também precisam tomar consciência disso tudo antes mesmo de propor soluções estratégicas. Nós os elegemos para pensar isso, então devemos ter certeza de que damos nosso voto de confiança às pessoas certas.

Nas próximas eleições, sugiro que todos nós prestemos nossas atenções àqueles que dão, de fato, soluções para os problemas de desigualdade social no Brasil. E que isso seja só o começo.

A Desobediência Civíl

Recentemente, iniciei a leitura de “A desobediência Civíl“. Trata-se do texto mais conhecido de Henry David Thoreau, e foi escrito em 1849. O texto foi abrilhantado pela influência que exerceu na resistência pacifista de Mahatma Gandhi, na liderança ativista de Martin Luther King e nos ideais políticos de Léon Tolstói.

O texto deixa claro que Thoreau estava insatisfeito com seu governo. “Aceito com entusiasmo o lema ‘O melhor governo é o que governa menos’” dá início à uma leitura e reflexão grandiosas. No decorrer do ensaio, Thoreau questiona como as pessoas são capazes de se sentir confortáveis, em condições morais satisfatórias, enquanto “escraviza ou faz sofrer um outro homem”. Em nenhum momento, no entanto, ele diz que precisamos ser fisicamente agressivos. Ao contrário, diz que basta não apoiar o governo, nem deixar que ele o apóie – mesmo quando estiver contra ele.

Em outras palavras, ele sugere que neguemos ao governo em todos os aspectos. Não damos nosso apoio (pagando impostos, por exemplo) e não aceitamos nenhum de seus subsídios. Thoreau sustentou seus ideais de tal maneira, que chegou a ficar uma noite inteira numa prisão no estado onde morava, após ficar seis anos sem pagar o imposto “per capita” (ou “individual”). No ensaio, logo após o episódio, ele diz: “perdi todo o respeito que ainda tinha por ele [governo] e passei a considerá-lo apenas lamentável”.

Nos dias de hoje, acho difícil seguir a risca o que diz Thoreau. Confesso, inclusive, que devido minha cultura capitalista, foi bastante difícil digerir aquilo que foi escrito. Não é fácil interpretar e compreender abolicionistas em uma época como a nossa, onde nem mesmo em pensamentos pueris é possível cogitar uma vida sem impostos, taxas de sobrevivência ou pouco dinheiro para desfrutar uma vida saudável.

Entretanto, a insatisfação que leva Thoreau a se rebelar deveria (e poderia) ser levada em consideração em vários outros aspectos de nossas vidas. O governo não nos é tão útil tanto quanto como nós somos para eles – enquanto contribuintes. Muitos sentem isso, mas poucos deixam claro sua insatisfação. Menor ainda é o número de pessoas que sugerem soluções ou transmitem idéias capazes de atrair seguidores.

Num país como o nosso, onde fatos e boatos alimentam continuamente o ceticismo da população com relação ao nosso governo, ensaios como “A desobediência Civíl” nos mostram que a melhor maneira de protestarmos não é fazendo igual ou pior que as quadrilhas do Palácio do Planalto, mas renegando-as, inclusive, em suas características mais humanas.

Uma nação justa não se faz de um povo que corrompe sob a desculpa de ter sido um dia corrompido. Mas de pessoas que não aceitam a corrupção em nenhuma forma, e luta contra aquilo que o incomoda da melhor maneira possível: não lhe dando seu apoio em nenhum aspecto.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

Thoreau foi influenciado por Rousseau, autor de “O Contrato Social“. Nesta, que é considerada a obra-prima do autor, ele entende que todo ser-humano é livre e naturalmente bom. Ele se torna corrupto de acordo com o meio em que vive. Por isso, ele estimula os homens a viverem em sociedades menores.

As idéias de Rousseau – como os princípios de liberdade e igualdade política – tiveram grande influência na Revolução Francesa, tendo, inclusive, inspirado sua segunda fase, quando o que havia sobrado de monarquia fora completamente liquidado.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

Para os cinéfilos, recomendo que assistam “Into the wild“, que é fortemente influenciado por Thoreau.

O Beijo do Leão

Uma mulher colombiana cuidou de um leão até que ele se curasse de um ferimento. Depois disso, levou-o ao zoológico da cidade. Depois de alguns dias, voltou para ver como estava o felino. Vejam a recepção que ela teve.

Crime sem Castigo

Incrível como as coisas no Brasil raramente mudam. Na onda do Grau de Investimento, o que denota confiança internacional na saúde financeira tupiniquim, surgem fatos que no mínimo sustentam a imagem de um outro Brasil: o país da impunidade.

A absolvição do fazendeiro Vitalmiro Moura, acusado de ser o mandante do assassinato da missionária Dorothy Stang, no Pará, em dezembro de 2005, ilustra claramente o tento dizer. O fazendeiro foi absolvido em júri popular, após uma das testemunhas (que é réu confesso do caso e condenado a 18 anos de prisão) reconsiderar sua afirmação anterior, a de que havia contratado os pistoleiros que assassinaram Dorothy Stang a mando do senhor feudal.

Assim também o fez o bandido que puxou o gatilho. Ele disse que o fazendeiro não está envolvido na história. Me causa espécie saber que esse matador de aluguel havia prestado 14 depoimentos anteriores, e só agora resolveu isentar de culpa seu senhor feudal.

Vitalmiro, aliás, havia sido condenado a 30 anos de prisão no dia 15 de maio de 2007. Mas, vejam só. Pelo Código Penal Brasileiro, se um réu é condenado a mais de 20 anos, tem direito a um novo julgamento. Um ano após a primeira condenação, o fazendeiro – Bida, como é carinhosamente chamado – foi considerado inocente. Bravo.

O caso é complexo e repercute no mundo inteiro. Mas esse é um caso que parece ser normal no Pará. Ou alguém aqui se esqueceu do caso onde a Justiça manteve uma menina de 12 anos em uma cela lotada de homens? É, isso aconteceu por aqueles lados também.

Nosso país dificilmente pune mandantes. Dessa vez, o mundo inteiro está de olho no caso e certamente farão pressão por um novo julgamento. Tomara que a morte da freira seja um marco na história de impunidade no Brasil.

Até nosso presidente está preocupado com a repercussão do caso. Durma-se com isso.

Próxima Página »